Dia da Consciência Negra: por que o feriado nacional importa mais do que nunca
- Hannah Dias
- 20 de nov. de 2025
- 6 min de leitura

O Dia da Consciência Negra, agora feriado nacional, é um convite para refletir sobre história, desigualdades e práticas antirracistas no Brasil.
O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, é um marco fundamental para reconhecer a resistência do povo negro no Brasil e refletir sobre as desigualdades que ainda estruturam a sociedade.
Em 2023, a data passou por uma conquista histórica: foi transformada em feriado nacional pela Lei 14.759/2023, fortalecendo seu caráter institucional e educativo.
Isso significa reconhecer que refletir sobre desigualdades raciais não é um evento sazonal, mas parte da estrutura de um país que foi construído sobre o trabalho, a criatividade e a resistência de pessoas negras.
Se é verdade que feriados não mudam realidades por si só, também é verdade que nenhum país avança sem criar tempo, espaço e memória coletiva para enfrentar seus dilemas.
Como surgiu o Dia da Consciência Negra?
O 20 de novembro marca a morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, o maior e mais longevo quilombo da história do Brasil, com aproximadamente 20 mil habitantes no final do século XVI. Zumbi assumiu a liderança do quilombo em 1678 e resistiu à opressão portuguesa por quase vinte anos.
Quando foi assassinado devido à divulgação de seu esconderijo, Zumbi foi decapitado e sua cabeça, exposta em Recife. Ele se tornou um dos maiores movimentos de resistência negra da história das Américas, marcando a lenha que logo seria queimada nos próximos séculos, revelando-se uma figura simbólica para a abolição da escravatura.
O Dia da Consciência Negra foi idealizado por estudantes negros no Rio Grande do Sul em 1971 — o chamado Grupo Palmares — como uma homenagem à figura de Zumbi e um marco nacional para a história da população negra brasileira. Em 2003, o presidente Lula sancionou uma lei federal que considera 20 de novembro o “Dia Nacional da Consciência Negra” e tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas de todo o Brasil.
“Eu canto aos Palmares
sem inveja de Virgílio, de Homero e de Camões
porque o meu canto é o grito de uma raça
em plena luta pela liberdade!
[...]
E agora ouvimos um grito de guerra,
ao longe divisamos as tochas acesas,
é a civilização sanguinária que se aproxima.
Mas não mataram meu poema.
Mais forte que todas as forças é a Liberdade…
O opressor não pôde fechar minha boca,
nem maltratar meu corpo,
meu poema é cantado através dos séculos,
minha musa esclarece as consciências,
Zumbi foi redimido…”
– Elisa Lucinda
É importante ressaltar a importância de exaltar e relembrar figuras históricas relacionadas à resistência negra. Durante muitos anos, era comum acreditar que os escravos africanos foram trazidos de forma “pacífica” e sem resistência. Por isso, figuras como a de Zumbi revelam uma trajetória histórica que protagoniza pessoas negras, que as dignifica, que as amplifica e que as humaniza.
O feriado nacional como instrumento político e educativo
Antes de se tornar feriado nacional, a data era adotada apenas em alguns estados e municípios. Com a lei federal, o país assume de forma unificada que a pauta racial é urgente e transversal de educação à economia, de cultura à política pública.
Essa é uma das diversas maneiras para:
escolas revisarem currículos com mais responsabilidade histórica
organizações promoverem debates e ações formativas
o setor público desenvolver programas alinhados à equidade racial
territórios celebrarem culturas afro-brasileiras com visibilidade
e muito mais!
O Dia da Consciência Negra como feriado nacional funciona como reforço institucional para aquilo que movimentos negros dizem há décadas: memória negra precisa ser ressignificada em políticas públicas.
Afinal, quando olhamos para a realidade, é impossível deixar de perceber o impacto que a escravidão deixou na população negra do Brasil:
Em 2022, segundo o IBGE (PNAD Contínua), o rendimento-hora da população branca foi de cerca de R$ 20, enquanto o da população preta ou parda foi de cerca de R$ 11,80–12,40, ou seja, uma diferença na casa de 60% a mais para brancos
O Atlas da Violência mostra que uma pessoa negra tem cerca de 2,7 a 2,8 vezes mais chances de ser vítima de homicídio do que uma pessoa não negra
Em 2022, a renda média das pessoas brancas era 87% maior que a das pessoas negras
Segundo análise baseada na PNAD Contínua, negros recebem, em média, 55% do valor salarial dos brancos mesmo com o mesmo nível de escolaridade. Em recortes de cargos de gerência, a diferença salarial chega a mais de 40%.
Nenhum desses indicadores é acidental; é o resultado da engrenagem histórica do racismo estrutural, que organiza oportunidades, acessos e expectativas. Por isso, a “consciência” negra não é abstrata: ela se materializa no presente.
Esse dado abre margem para entender que, nos últimos anos, o debate sobre raça ganhou visibilidade. Porém, também trouxe uma onda, algumas vezes bem-intencionada, de performances antirracistas que produzem mais barulho do que impacto concreto.
É aquele padrão conhecido: postagens empolgadas em novembro, frases prontas, citações de filmes ou de pensadores, pedidos de "paciência pedagógica", links que nunca são lidos, conversas que param na superfície… no entanto, é necessário reconhecer que, às vezes, o excesso de discurso se torna uma cortina que impede o trabalho real, o que exige revisão de práticas, enfrentamento de privilégios e mudança de decisões.
Nenhuma mensagem de consciência e antirracismo é mais importante do que a fatídica realidade: luta-se contra o racismo denunciando atos, sistemas e padrões de discriminação que fazem a máquina social rodar. É necessário ser antirracista para além do costumeiro, do cotidiano, das redes sociais, das cotas vazias de empresas multimilionárias e de programas de televisão e das salas das universidades. e buscar soluções para a realidade destrutiva que impacta a vida de milhões de pessoas no Brasil.
Os resultados da Consciência Negra no Brasil
Levando em consideração a urgência em concretizar soluções práticas para a população negra, diversos exemplos podem ser considerados, como o Plano Juventude Viva, que busca reduzir a vulnerabilidade dos jovens em situações de violência; Lei de Cotas, que passou por atualização em 2023 e incluiu estudantes quilombolas como beneficiários das cotas.
Em 2023, também foi lançado o Aquilomba Brasil, um conjunto de medidas voltadas à promoção dos direitos da população quilombola, como o acesso à terra, infraestrutura e qualidade de vida, inclusão produtiva e desenvolvimento local, e direitos e cidadania.
Para além de medidas governamentais, diversas organizações da sociedade civil perpetuam iniciativas que buscam a dignidade e o desenvolvimento educacional e econômico da população negra. O Instituto GUETTO, por exemplo, desde 2019 vem criando diversos projetos neste campo, como a Escola Ponte para Pretxs, o Quilombo Educacional, o Projeto Sementes, o Mapa Preto da Educação, entre muitos outros.
Em 2025, celebramos 6 anos de existência e resistência, ampliando nosso impacto para 6 estados — Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Brasília e Belém — no Novembro GUETTO, um marco de mobilização nacional pela equidade racial.
Mais de 10 mil pessoas negras foram impactadas pelo iGUETTO ao longo desses anos. E esse é o nosso legado: impulsionar a população negra como uma potência intelectual e econômica, que protagonizam seus futuros e constroem novos legados.
Consciência Negra é sobre futuro
O feriado nacional de 20 de novembro não é um dia de descanso: é um marco civilizatório. É uma chance anual de o Brasil se olhar no espelho sem filtros, sem atalhos, sem frases prontas.
A consciência negra é, essencialmente, um convite:
Que tipo de país queremos construir?
E o que cada pessoa, instituição e comunidade está disposta a fazer para isso?
Porque a história já mostrou: existe a possibilidade de mudança. E continuará existindo enquanto Zumbis tornarem-se a maioria e não a exceção.
No Instituto GUETTO, por exemplo, acreditamos no poder da cultura, da equidade e da colaboração coletiva para transformar o Brasil. Todos os nossos projetos e iniciativas têm como o foco uma regeneração sistêmica da nossa nação, começando pelas comunidades negras e indígenas brasileiras.
O projeto Cenários Futuros para a População Negra no Brasil reúne especialistas, ativistas, lideranças históricas e representantes de instituições parceiras para imaginar e construir futuros possíveis de forma estratégica.
Para saber mais sobre o projeto, clique aqui!



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