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Quem consegue sonhar quando trabalha demais? Curta transforma a escala 6x1 em debate urgente

Produzido por estudantes da Faetec Adolpho Bloch e financiado com venda de brigadeiros, “Me Desculpa, Nathan” leva ao cinema a realidade da juventude precarizada e das mães solo no Brasil



Protesto nas ruas com pessoas segurando cartazes amarelos. Texto no cartaz: "6x1 é escravidão moderna, por condições dignas, nossa luta é eterna".
Trabalhadores protestam contra a escala 6x1, chamada em cartaz de "escravidão moderna". - Reprodução/Eline Luz/Andes

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força nas redes sociais, nas ruas e no Congresso. Mas, para muitos trabalhadores brasileiros, essa discussão não é apenas política, é pessoal.


Dessa urgência nasceu “Me Desculpa, Nathan”, curta-metragem produzido pelos formandos da FAETEC Adolpho Bloch, única escola pública de audiovisual do Rio de Janeiro. Desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), o curta transforma em cinema uma realidade conhecida por milhões de brasileiros: a impossibilidade de viver quando todo o tempo é consumido pelo trabalho.


A produção foi financiada a partir das vendas de brigadeiros dentro da escola. O esforço coletivo virou parte da própria narrativa do filme: jovens tentando sobreviver enquanto lutam para continuar sonhando.


Personagem Thamires, que é uma Mulher negra está sentada em sofá azul claro, fala ao telefone com expressão séria. Texto na imagem: "Desculpa filho". Fundo neutro.


“Me Desculpa, Nathan” mostra que sonhar também virou privilégio


O curta acompanha Thamires, uma jovem negra, mãe solo, presa na rotina exaustiva da escala 6x1. Entre ônibus, trabalho, cansaço e a pressão constante da sobrevivência, ela tenta equilibrar o sustento financeiro com o afeto materno — mas o tempo nunca parece suficiente.


A história dialoga diretamente com situações reais que vêm mobilizando o país. Uma das mais recentes foi a repercussão da reportagem exibida no Bom Dia Pernambuco, em que a jovem Maria Luísa chorou ao explicar que sua mãe não poderia participar de uma atividade da escola porque estava trabalhando. A cena emocionou as redes sociais justamente por expor uma realidade silenciosa: mães que precisam abrir mão da convivência familiar para sobreviver.


Menina de camiseta branca e amarela enxuga lágrimas no rosto. Fundo com azulejos brancos. Clima emocional e sério.
Criança chamada Maria Luísa chora em reportagem ao Bom dia PE e reacende debate sobre o fim da escala 6x1


No curta, essa ausência também aparece como uma ferida cotidiana na vida da personagem. Vivendo em looping uma rotina marcada pelo esgotamento. Trabalha demais, dorme pouco, vive correndo e, ainda assim, sente que nunca consegue estar presente na vida do filho.


“A escala 6x1 rouba tempo, afeto e futuro”


Para a atriz Isabele Brum, interpretar Thamires foi atravessar emoções muito próximas da vida real.

“Quando a personagem Thamires chegou na minha vida, eu estava enfrentando uma luta muito grande e em extrema privação de sono. Digo isso porque ela é uma mulher muito sobrecarregada pela escala 6x1, por ser mãe solo e uma jovem negra. Foi o cansaço que nos uniu e algo importante nasceu, em forma de arte.”

A construção do filme também foi marcada pela falta de recursos e pela criatividade coletiva.


Bruno Yele, responsável pela fotografia, conta que a equipe precisou transformar a limitação em linguagem visual.

“Na criação dos planos, eu prezei pela sensação de rotina repetitiva, mostrando planos iguais porém sendo dias diferentes. Pela falta de verba, apenas conseguimos uma luz, na qual usufruímos ao máximo dela.”

Bárbara Callado, da produção, relembra o processo de arrecadação para viabilizar o projeto.

“Também ajudei nos custos, vendendo brigadeiro na escola. No geral, foi um processo muito enriquecedor.”

A escala 6x1 aparece no curta não apenas como modelo de trabalho, mas como símbolo de um sistema que consome tempo, afeto e perspectivas de futuro — especialmente entre pessoas negras e periféricas.





Jovens transformam exaustão de mães solo em denúncia social e ganham repercussão no Brasil


Mesmo sendo uma produção independente e feita com recursos limitados, “Me Desculpa, Nathan” já demonstra a força do cinema produzido pela juventude periférica.


O curta estreou com sala lotada no Estação NET Rio e rapidamente começou a repercutir nas redes sociais e em veículos de imprensa.


O historiador e escritor Luiz Antonio Simas compartilhou o filme em suas redes, ampliando o alcance do projeto. A produção também chamou atenção da deputada federal Erika Hilton, uma das vozes públicas do debate sobre o fim da escala 6x1 no país.


Além disso, o curta já foi destaque em veículos como:

Fim da escala 6x1 é responsabilidade coletiva


Personagem Thamires, mulher negra fala ao telefone, sentada em um sofá azul com almofadas geométricas. Texto na tela: "Só tô trabalhando muito mesmo".


Para Kauã Pereira, diretor do curta, falar sobre a escala 6x1 era uma responsabilidade coletiva.

“[O curta] foi um projeto que nos exigiu muita responsabilidade e sensibilidade na abordagem de um tema muito atual e importante na sociedade.”

A assistente de direção Emanuelle Reis explica que a ideia surgiu justamente da necessidade de falar sobre a realidade dos trabalhadores brasileiros.

“No começo a gente tava meio perdido, tivemos um brainstorming e não sabíamos qual ideia executar. Então nasceu a história da Thamires, com a intenção de fazer uma crítica à escala 6x1.”

A força do filme está atrelada justamente a vida dos jovens da escola pública, que usaram como inspiração para narrar aquilo que vivem, observam e sentem diariamente dentro do curta.


Enquanto milhões de brasileiros debatem jornadas exaustivas nas redes sociais, “Me Desculpa, Nathan” mostra que a escala 6x1 não afeta apenas o trabalho, também atravessa o afeto, a maternidade e o direito de sonhar.


Onde assistir “Me Desculpa, Nathan”


Assista ao curta: Me Desculpa, Nathan

Acompanhe a repercussão do projeto: Instagram da produção

Leia as matérias sobre o curta:

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