da página: :
top of page

Instituto GUETTO lança curso gratuito de pré-vestibular para jovens negros e indígenas em São Paulo

Atualizado: 2 de abr.

Programa Axé amplia acesso de jovens negros e indígenas a melhores universidades brasileiras com apoio acadêmico, emocional e financeiro


jovens negros tirando foto em uma sala ampla com iluminação natural e lousa verde atrás
Estudantes do Programa Axé na sala de aula em Janeiro de 2026, em São Paulo - Foto: Registro feito por aparelho celular.

As boas energias já estão circulando entre estudantes negros do ensino médio em São Paulo. E não é por acaso.


O Instituto GUETTO em parceria com uma instituição privada de São Paulo, lançou, em novembro de 2025, o Programa Axé, um pré-vestibular gratuito voltado para jovens de escolas públicas em situação socioeconômica de maior vulnerabilidade e que, muitas vezes, não conseguem competir em igualdade de condições por uma vaga na universidade.


O programa nasce como uma Ponte real entre talento e oportunidade.


Leia mais sobre o programa que amplia o acesso de estudantes negros e indígenas a melhores universidades do país.


Conheça outros projetos disponíveis do Instituto GUETTO. Saiba mais!



O que é o Programa Axé?


O Programa Axé é uma iniciativa que nasce do compromisso de transformar trajetórias por meio da educação. Com aulas presenciais na cidade de São Paulo, o projeto oferece um ensino de qualidade voltado a jovens negros e indígenas do ensino médio que desejam ter acesso a formação acadêmica e, a partir disso, tornar realidade o sonho de, no futuro, assumir cargos de liderança ou profissões de alta renda, que frequentemente exigem ensino superior e especializações.


pessoas brancas, negras e indígenas em uma sala de reunião sorrindo para a câmera
Lançamento do Programa Axé em Novembro de 2025, em São Paulo - Foto: Tiago Santana

Além de promover um cursinho preparatório intensivo para 30 jovens, o Axé tem se destacado por dar suporte psicológico e atuar na formação socioemocional dos estudantes. Para tanto, o Programa Axé, com base na Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o estudo da cultura afro-brasileira e Indígena nas escolas, adota uma formação com letramento racial, ou seja, utiliza princípios de neutralidade do ensino pela desconstrução de formas de pensar racistas.


A partir da compreensão de como o racismo é construído, política e ideologicamente, e de como é naturalizado na sociedade, muitas vezes passando a falsa ideia de igualdade, o programa implementa outras perspectivas de modo que estudantes possam refletir e ressignificar as nossas reais identidades e história.


Para a Diretora Executiva do Instituto GUETTO, Aimê Araujo, o programa dialoga profundamente com o que a instituição acredita sobre o papel da educação na transformação das trajetórias de pessoas negras no Brasil:

“A ideia nunca foi apenas criar um cursinho preparatório. Acreditamos que atingir o ensino superior também passa pelo fortalecimento da identidade, da confiança e do senso de pertencimento dos estudantes.”

Para ela, enfrentar as desigualdades estruturais da educação exige mais do que acesso ao conteúdo, exige condições reais de desenvolvimento:

“Temos muitas desigualdades estruturais na área de educação e, por esse motivo, pessoas extremamente talentosas acabam não conseguindo ter oportunidades de excelência simplesmente porque não tiveram as mesmas condições de preparação”

Por que iniciativas como curso gratuito de pré-vestibular são urgentes?

 

Não é de hoje que os estudantes de escolas públicas são obrigados a enfrentar inúmeros desafios. Segundo registros divulgados pelo Anuário Brasileiro de Educação Básica 2025, elaborados pelo Todos Pela Educação, Fundação Santillana e Editora Moderna, a falta de infraestrutura básica impacta diretamente no aprendizado. Menos da metade das unidades tem acesso a esgoto, mais de 20% não tem coleta de lixo e apenas 38,7% das salas de aula dispõem de ar-condicionado ou aquecedor.

 

Dados recentes mostram ainda que os adolescentes pretos e pardos, mesmo sendo maioria, enfrentam maiores barreiras em comparação aos seus pares brancos. Eles são os que tem menor renda per capta por domicílio e maior índice de inserção precoce no mercado de trabalho, estando mais propensos a empregos informais e menor acesso a oportunidades educacionais de qualidade.

 

De acordo com uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2023, dos jovens de 14 a 29 anos que não completaram o ensino médio – seja por terem abandonado a escola antes do término desta etapa, seja por nunca a ter frequentado – 71,6% eram negros.


É nesse contexto que o curso gratuito de pré-vestibular como o Programa Axé se tornam urgentes. Para Iamara Lopes, Mobilizadora Social do Instituto GUETTO, que acompanha de perto o dia a dia dos estudantes, a chance de participar de um projeto como esse tem um significado profundo, inclusive pela conexão e proximidade com a sua própria história:


“Participar do Programa Axé e poder ajudar a mudar a vida de 30 jovens oriundos de escola pública e bolsistas é muito significativo para mim, especialmente porque toda minha trajetória e jornada acadêmica foi como bolsista. Se eu não tivesse tido acesso a bolsas, não conseguiria estudar.”

A urgência também se revela na realidade enfrentada pelos próprios estudantes. Muitos percorrem longas distâncias, conciliam estudo e trabalho e ainda encontram energia para participar do pré-vestibular. Segundo Iamara, essa dedicação reforça a importância de garantir apoio e permanência ao longo do processo:


“É uma cidade com muita desigualdade (...) tem muita riqueza e muita pobreza. Conseguimos atingir esses jovens que são os que mais precisam e que não teriam condição porque moram longe. Eles fazem o sacrifício de se deslocar até o pré-vestibular, mesmo depois de estudarem o dia inteiro (...) as 24 horas não são as mesmas para todos e, apesar do cansaço, eles [jovens] querem muito”

 

Por essas razões, o Programa Axé vem com o propósito não apenas de combater as desigualdades mas, principalmente, de abrir caminhos às novas gerações. A ideia é inspirar esses jovens para que se tornem efetivamente reconhecidos como cidadãos, que tenham de fato seus direitos garantidos e que possam construir um futuro promissor, contribuindo para uma sociedade mais justa.



Como funciona o pré-vestibular


Participar de um pré-vestibular exige constância e, muitas vezes, é o maior desafio para quem já enfrenta uma rotina atravessada por outras demandas.


Nesse contexto, o preparatório para o vestibular conta com o acompanhamento contínuo de desempenho e auxílio financeiro, dois aspectos importantes para garantir a permanência dos alunos e, desta forma, evitar a evasão escolar. A partir do monitoramento de assiduidade, bolsa mensal e apoio para transporte, o programa garante maior engajamento e melhor desempenho.


Essa estrutura faz diferença na forma como os estudantes enxergam o próprio futuro. Como conta Gabriela Boaventura, da Escola Don João e Maria:


“Entrar neste projeto é a oportunidade que eu ainda não tive, mas que pode mudar meu caminho e abrir portas para o futuro que eu sonho.”

A proposta é sustentar a caminhada ao longo do tempo, com estrutura, acompanhamento próximo e incentivo de modo que cada estudante consiga avançar no seu próprio ritmo, sem precisar abrir mão do projeto de futuro que está construindo.


Como destaca Iamara Lopes, o acesso à educação superior pode gerar transformações que atravessam gerações:


“Mobilidade social não impacta somente a vida desse jovem, mas a vida da família dele, das próximas gerações.”

Até o fim do curso, previsto para acabar em julho de 2026, serão 600 horas de ensino em 10 meses, ou seja, 15 horas semanais para ministrar disciplinas completas como Português, Redação, Matemática, Física, Química, Biologia, História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Inglês/Espanhol e Atualidades.

 

Apoio psicológico e desenvolvimento socioemocional como estratégia de permanência e sucesso


O Programa Axé é realizado em parceria com o Instituto Orientar, organização que atua no acompanhamento psicossocial com foco em Psicanálise e Psicopedagogia, promovendo processos de escuta qualificada, acolhimento e desenvolvimento emocional dos estudantes. Com experiência no atendimento a jovens e atuação especializada em neurodivergência, o Instituto oferece suporte tanto no formato on-line quanto presencial, garantindo flexibilidade e continuidade no cuidado.


duas mulheres negras se abraçando, uma delas usando um brinco escrito "não toque no meu orí"
Da esquerda para a direita, Aimê Araujo, diretora executiva do Instituto GUETTO, e Jandira Moreno, Fundadora do Instituto Orientar e Psicanalista. Foto: Tiago Santana

Fundado por Jandira Moreno, o Instituto Orientar contribui diretamente para a estrutura de permanência no programa ao fortalecer uma rede de apoio consistente e conectada à realidade dos beneficiários. Um dos diferenciais dessa parceria é a presença de psicólogas negras, à frente dos atendimentos presenciais, o que favorece a construção de vínculos mais próximos, representativos e seguros para os estudantes.


Ao longo da formação, os participantes contam com atendimentos psicossociais individuais, realizados de forma quinzenal, além de acompanhamento contínuo, voltado ao desenvolvimento socioemocional. Jandira Moreno e Hellen Freitas, Psicóloga do Instituto Orientar, também conduzem atendimentos remotos, ampliando o acesso ao suporte e garantindo que os estudantes tenham um espaço regular de escuta, orientação e fortalecimento emocional.


uma mulher parda de cabelo curto e óculos sorrindo para a câmera
Hellen Freitas, psicóloga do Instituto Orientar.

Essa estrutura de cuidado é parte essencial da proposta do Programa Axé, ao reconhecer que o desempenho acadêmico está diretamente ligado às condições emocionais dos estudantes e à forma como eles se sentem acolhidos, seguros e pertencentes ao longo de sua trajetória educacional.


 

Histórias que começam muito antes do vestibular


Por trás de cada estudante do Programa Axé existe uma vida marcada por desafios, sonhos e o desejo de transformar realidades que vão muito além do ingresso à universidade. São jovens que carregam consigo histórias familiares, responsabilidades e o compromisso de abrir caminhos não apenas para si, mas também para suas comunidades.


Entre os estudantes contemplados, estão jovens vindos de diferentes escolas e regiões da cidade de São Paulo, que enxergam na educação uma oportunidade concreta de mudança. Mayra Gabriela, estudante da Escola Caetano, resume esse sentimento ao afirmar que


"Quero estudar para mudar o futuro da minha família e abrir caminhos para os jovens do meu bairro" 

Mayra Gabriela

Escola Caetano


Sua fala reflete o que move muitos participantes do programa: o desejo de transformar a própria realidade e, ao mesmo tempo, gerar impacto coletivo.


Essa vivência também aparece na história de Rebeca Rezende, da Escola Allegretti, que carrega a experiência da maternidade como parte central de sua caminhada. Para ela, ter um ensino de qualidade ao alcance tem um significado ainda mais relevante, pois está diretamente conectado ao futuro de sua filha:

 

"Meu futuro está ligado ao da minha filha Tiana, estudo para transformar a vida dela, assim como minha mãe transforma a minha para que eu siga aprendendo mesmo sendo mãe."

Rebeca Rezende

Escola Allegretti

 

Sua trajetória evidencia como o acesso à educação pode romper ciclos e construir novas possibilidades entre gerações.


O programa também reúne jovens que enxergam na arte uma ferramenta de transformação social. É o caso de Tiana dos Santos, estudante da Escola Fábrica, que sonha em seguir carreira como atriz e usar sua vivência para inspirar outras pessoas. Ao falar sobre seu futuro, ela destaca:

 

"Minha arte vai onde eu vou: quero ser atriz para mudar meu futuro, iluminar meu território e transformar vidas dentro do projeto social."

Tiana dos Santos

Escola Fábrica

 

Histórias como essas mostram que o Programa Axé não reúne apenas estudantes que desejam ingressar na universidade, mas jovens que carregam projetos de vida conectados à transformação de suas famílias e comunidades. Ao investir nesses estudantes, o programa fortalece estudantes negros e indígenas que têm potencial para gerar impacto social duradouro e ampliar as possibilidades de futuro para toda uma geração.


Iamara Lopes presencia no cotidiano a diferença que faz na vida desses jovens:


“Está sendo fantástico fazer parte disso e ajudar a ser ponte para que esses jovens pretos, pardos e indígenas consigam atravessar e chegar do outro lado (...) Quando um de nós chega lá, todos nós chegamos juntos. É muito simbólico fazer parte disso.”


Parcerias que ampliam o acesso e fortalecem trajetórias


O Programa Axé conta com a parceria da Escola da Cidade (Escola de Arquitetura e Urbanismo), que desde 2020 também passou a oferecer o Ensino Médio através da Fábrica Escola de Humanidades, ampliando sua atuação educacional e fortalecendo iniciativas voltadas à formação de jovens.


duas mulheres, uma negra e outra parda, ambas usando óculos de grau e sorrindo para a câmera
Da esquerda para direita, Julia, professora de atualidades, e Jenifer, diretora da Escola da Cidade no lançamento do Programa Axé em Novembro de 2025, em São Paulo - Foto: Tiago Santana

A parceria surge a partir de um compromisso compartilhado com a democratização do acesso à educação. Como contrapartida, estudantes da própria Fábrica Escola de Humanidades também podem participar do Programa Axé, promovendo a convivência entre jovens de diferentes trajetórias e ampliando as trocas dentro do ambiente de aprendizagem. Segundo Jenifer Santos Souza, Diretora Pedagógica da Fábrica Escola de Humanidades, a parceria entre as instituições:


"cria um espaço de acolhimento e inclusão que se aproxima de um verdadeiro aquilombamento educacional. Nesse contexto, estudantes do ensino médio se preparam para o vestibular tendo como referência professores e professoras pretas, em diálogo com colegas que também são estudantes negros e negras. Essa construção coletiva, atravessada pela representatividade potencializa o projeto comum de ingresso na universidade como um caminho possível e inspirador.”

Localizada em São Paulo, próximo a espaços culturais e de arte, como o coletivo É Nóis na Fita, contribui para que os estudantes tenham contato com diferentes expressões culturais ao longo da formação. Além disso, o local possui fácil acesso para jovens vindos de diferentes regiões da cidade, incluindo Zona Leste, Zona Sul e Zona Norte, o que amplia as possibilidades de participação e permanência no programa.


A parceria também reúne estudantes de diversas realidades educacionais, incluindo jovens bolsistas, fortalecendo o caráter diverso e inclusivo do Programa Axé. Esse encontro entre diferentes vivências facilita o ingresso ao pré-vestibular gratuito e contribui para a construção de um ambiente mais rico em trocas, aprendizados e perspectivas.


Outro ponto de destaque é a receptividade da Escola da Cidade, que, além da cessão do espaço para as aulas, também apoia o programa com a disponibilização de materiais e infraestrutura, criando um ambiente acolhedor e propício para o desenvolvimento acadêmico e socioemocional dos estudantes.


Programa que amplia horizontes e constrói futuros possíveis


A iniciativa nasce da compreensão de que democratizar o acesso à educação também significa transformar trajetórias historicamente marcadas pela desigualdade e pela ausência de oportunidades.


Para a Aimê Araujo, diretora executiva do Instituto GUETTO, o fortalecimento de jovens negros por meio da educação é uma ferramenta poderosa de transformação social. Ver estudantes ocupando espaços que, por muito tempo, foram negados à população negra — como vagas nas melhores universidades, profissões de nível superior e cargos de liderança — reforça a importância de iniciativas educacionais comprometidas com a inclusão e a equidade.

“O Axé é, no fundo, sobre ampliar horizontes e construir futuros possíveis.”

Outro ponto de destaque é a influência que o programa exerce sobre os jovens em geral.

“Não estamos falando apenas de trajetórias individuais de ascensão, mas de pessoas que carregam consigo histórias familiares, comunitárias e coletivas. Quando um estudante negro acessa a universidade, muitas vezes ele abre caminho para outros que virão depois”,

conclui.


Ao investir na permanência, no desenvolvimento acadêmico e no fortalecimento socioemocional desses jovens, o Programa Axé contribui para a construção de novos caminhos e amplia as possibilidades de futuro para uma geração inteira.


Conheça mais sobre o Instituto GUETTO e o seu papel de transformação social na educação brasileira. Saiba mais!





 
 
 

Comentários


bottom of page