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A 'Vitamina D' que falta às organizações periféricas

há 8 minutos
4 min de leitura

Uma vitamina pode fazer diferença entre uma boa ideia e um projeto que consegue continuar existindo. Entenda por que ela é tão importante para organizações periféricas.


Seis pessoas negras sorrindo em palco, uma segura certificado; ao fundo, projeção com a palavra SEMENTES na formatura do projeto
Formatura do Projeto Sementes, no MUHCAB, Rio de Janeiro. Foto: Taynara Roberto

Existe uma vitamina que não aparece nas prateleiras das farmácias, mas faz falta para a sobrevivência de muitas organizações periféricas: a Vitamina D.


Não estamos falando de suplemento, mas de recurso financeiro.


Daquele dinheiro que permite pagar uma equipe, manter uma sede, desenvolver um projeto, comprar equipamentos, profissionalizar uma gestão e, principalmente, garantir que organizações que conhecem profundamente seus territórios tenham condições de continuar transformando-os.


Para Roberta Calixto, diretora do Instituto As Josefinas, organização localizada em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, essa discussão passa diretamente pela autonomia de quem está no território:


"Essa é a realidade de muitas organizações que estão na ponta, nos territórios... que historicamente são organizações de mulheres e pessoas negras que carregam todo um legado de impacto, mas que na verdade o financiamento não vem"

A experiência do Josefinas, contemplada na primeira turma do Projeto Sementes do  Instituto GUETTO, mostra que, quando o recurso chega a quem conhece o território, suas necessidades e suas potências, o dinheiro deixa de ser apenas financiamento e passa a ser ferramenta de transformação.



O dinheiro ainda não chega onde o impacto acontece


O mapeamento realizado pelo Instituto GUETTO para o Projeto Sementes, a partir da base oficial do Cultura Viva/Ministério da Cultura (MinC), identificou 235 organizações da Região Metropolitana do Rio de Janeiro cuja área de atuação inclui explicitamente a Cultura Negra.


São iniciativas que atuam na produção cultural, preservação da memória, formação, resistência e criação de novas linguagens nos territórios.


A dimensão dessa rede também revela uma desigualdade territorial. 143 dos pontos mapeados estão na cidade do Rio de Janeiro, enquanto municípios da Baixada Fluminense concentram números menores: Niterói tem 16, Duque de Caxias 15, Nova Iguaçu 14 e São Gonçalo 11, por exemplo. O próprio levantamento aponta que, apesar da riqueza cultural desses territórios, eles enfrentam menor visibilidade e acesso a recursos, enquanto os apoios permanecem concentrados na capital.


E o problema não é apenas territorial. O mapeamento identifica a baixa captação de recursos como um dos principais desafios das organizações de Cultura Negra. Muitas dependem de editais públicos ou internacionais competitivos e intermitentes, enquanto o acesso a patrocínios privados também é dificultado pela preferência por projetos de maior visibilidade. Sem financiamento contínuo, ficam comprometidas a manutenção das equipes, dos espaços e das atividades regulares.


A dificuldade de acesso ao dinheiro ainda se soma à falta de infraestrutura e apoio técnico. O documento aponta carências em áreas como gestão, comunicação, captação de recursos e marketing cultural, além de barreiras burocráticas que podem dificultar a participação de grupos comunitários menores em editais.


É nesse cenário que o Instituto GUETTO criou o Projeto Sementes. Não faltam organizações, ideias ou capacidade de transformar os territórios. O que falta, muitas vezes, é o recurso necessário para que essa potência consiga se sustentar e crescer.



Vitamina D: recurso também é autonomia


Para uma organização que atua no território, ter dinheiro para colocar um projeto em prática é importante. Mas ter recursos e capacidade de captação significa algo ainda maior: ter autonomia para decidir, planejar e sustentar a própria atuação.


Sem recursos, muitas organizações acabam dependendo de trabalhos voluntários, de editais pontuais ou de oportunidades que aparecem de forma descontínua. Isso dificulta a manutenção de equipes, espaços e atividades e torna mais difícil planejar o futuro.

O mapeamento do Projeto Sementes analisou justamente a dificuldade de captação e sustentabilidade financeira como um dos principais desafios das organizações de Cultura Negra da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.


Foi a partir dessa compreensão que nasceu o Projeto Sementes, contribuindo para que organizações culturais tenham mais condições de desenvolver seus projetos, acessar recursos e construir caminhos de sustentabilidade. A proposta parte de uma ideia simples, mas fundamental: quem está no território precisa ter condições para decidir sobre o próprio território.


Quando o recurso chega às mãos de quem conhece as demandas, as potências e os desafios locais, ele deixa de ser apenas financiamento de uma atividade e passa a ser uma ferramenta de autonomia institucional.



Afinal, como conseguir a Vitamina D?


A “Vitamina D” pode chegar de diferentes formas. Editais públicos e privados, fundos e programas de investimento social são alguns dos caminhos para organizações que precisam de recursos para colocar seus projetos em prática. Para encontrar essas oportunidades, o primeiro passo é acompanhar sites de órgãos públicos, institutos, fundações e empresas que abrem chamadas para organizações sociais e culturais.


Também vale criar uma rotina de pesquisa: acompanhar as páginas de oportunidades, cadastrar a organização em plataformas de financiamento e ficar atento aos períodos de inscrição. O próprio Projeto Sementes parte da compreensão de que fortalecer a capacidade de captação é importante para ampliar a autonomia e a sustentabilidade das organizações.


Outro caminho é conversar diretamente com empresas que tenham relação com a causa ou com o território onde a organização atua. Antes de fazer esse contato, é importante pesquisar quais temas a empresa apoia, se possui instituto ou fundação, se tem programas de investimento social ou se já patrocinou projetos parecidos.


Essas informações geralmente estão disponíveis no próprio site da empresa, especialmente nas áreas de “Sustentabilidade”, “Responsabilidade Social”, “Investimento Social”, “Instituto” ou “Projetos”.


A partir dessa pesquisa, a organização consegue fazer uma abordagem mais estratégica. Em vez de enviar a mesma proposta para qualquer empresa, pode apresentar seu trabalho para quem já demonstra interesse por aquela pauta — explicando quem é a organização, qual problema enfrenta, o impacto que produz no território e de que forma uma parceria poderia contribuir para ampliar esse impacto.


Captação de recursos também é construção de relacionamento.


Nem toda conversa vai resultar em um financiamento imediato. Conhecer empresas, apresentar a organização, entender suas prioridades e manter esses contatos pode abrir portas para futuras parcerias.


Aproveite para conhecer mais sobre os projetos, cursos e iniciativas desenvolvidas pelo Instituto GUETTO e acompanhe outras pautas ligadas à educação, direitos humanos, tecnologia, trabalho e juventude no nosso GIRO DE NOTÍCIAS




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