Dia Internacional da Mulher: como a conexão entre gerações de mulheres negras constrói futuros possíveis
- Hannah Dias

- há 2 dias
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O Dia Internacional da Mulher costuma ser marcado por homenagens e discursos que, muitas vezes, reduzem a complexidade da trajetória das mulheres ao redor do mundo a narrativas meramente celebratórias. No entanto, ao observarmos a história das mulheres negras no Brasil, torna-se impossível falar de futuro sem mencionar memória, organização coletiva e continuidade histórica.
Isso porque as transformações sociais que hoje parecem evidentes — desde o acesso à educação até a presença de mulheres negras em espaços institucionais — não surgiram espontaneamente. Elas foram construídas ao longo de décadas por mulheres que transformaram suas experiências de exclusão em formas de organização política, de formação coletiva e de intervenção social.
É nesse sentido que a frase frequentemente associada à pensadora Angela Davis ganha profundidade: quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se move com ela. Não se trata apenas de uma metáfora mobilizadora, mas de reconhecer que as mulheres negras têm desempenhado, historicamente, um papel estruturante na reorganização das relações sociais no Brasil.
No Instituto GUETTO, essa compreensão se manifesta de forma concreta ao observarmos como diferentes gerações de mulheres negras permanecem conectadas por uma mesma travessia política e intelectual. E você saberá mais a seguir!
O futuro como continuidade histórica
Para Aimê Araújo, diretora executiva do Instituto GUETTO, pensar o futuro exige compreender exatamente esse processo de continuidade.
Como ela afirma: “Quando penso no futuro, penso nas mulheres que caminham juntas para transformá-lo”. Essa afirmação desloca o debate sobre o futuro do campo da abstração para o campo das relações concretas entre gerações.
O futuro, nesse caso, não é um horizonte distante, mas um processo social construído a partir de encontros entre trajetórias distintas. De um lado, mulheres que acumularam décadas de experiência em movimentos sociais, organizações comunitárias e processos de formação política; de outro, lideranças mais jovens que surgem em novos contextos institucionais, trazendo outras linguagens, estratégias e campos de atuação.
Quando essas trajetórias se encontram, o resultado não é apenas inspiração simbólica. É a produção de um ativo de conhecimento político.
Educação como estratégia de enfrentamento do racismo estrutural
Entre os elementos que atravessam essas trajetórias, a educação ocupa um lugar central. Ao longo da história brasileira, mulheres negras sempre compreenderam a educação não apenas como instrumento de mobilidade individual, mas também como ferramenta coletiva de transformação social.
É nesse horizonte que a trajetória de Ieda Leal, educadora e líder histórica do Movimento Negro Unificado, ganha relevância. Ao longo de décadas de atuação, Ieda defendeu a educação como um caminho fundamental para o enfrentamento do racismo estrutural e para a formação política de novas gerações.
Sua atuação mostra que ensinar cria condições para que jovens compreendam as estruturas que influenciam as desigualdades no país e, a partir disso, possam transformá-las. Quando novas lideranças dialogam com esse legado, constrói-se uma continuidade política que conecta experiência e renovação.
Organização coletiva e a força das redes
Outro elemento central nessa trajetória é o papel das organizações coletivas. Movimentos sociais, coletivos e redes comunitárias sempre foram fundamentais para sustentar a luta das mulheres negras no Brasil.
Nesse campo, a atuação de lideranças como Benilda Brito, referência do Nzinga – Coletivo de Mulheres Negras de Belo Horizonte, evidencia a importância dessas redes. Ao longo de sua trajetória, Benilda tem contribuído para fortalecer espaços de articulação política entre mulheres negras, ampliando estratégias de mobilização e de produção de conhecimento coletivo.
Essas organizações funcionam como estruturas de apoio, formação e resistência, e permitem que experiências individuais se transformem em estratégias coletivas capazes de enfrentar desigualdades estruturais.
Ocupar espaços também é um ato político
Outro aspecto central dessa travessia geracional é a presença crescente de mulheres negras em espaços institucionais e de decisão. Durante séculos, as estruturas de poder no Brasil foram organizadas de modo a limitar o acesso dessas mulheres a posições de liderança. Por isso, cada vez que uma mulher negra ocupa esses espaços, essa presença também abre caminhos para outras.
Nesse sentido, o trabalho de Marianna Assis, do Fundo Agbara, ajuda a evidenciar uma dimensão muitas vezes invisibilizada da luta por justiça racial: o financiamento de iniciativas lideradas por mulheres negras. Ao fortalecer projetos e organizações que atuam em diferentes territórios, iniciativas como essa ampliam as condições materiais para que essas lideranças continuem a produzir impacto social.
Ocupar espaços, portanto, não é apenas uma conquista individual, mas parte de um processo coletivo de transformação das estruturas que organizam a sociedade.
O que move as mudanças sociais
Ao observar as trajetórias de mulheres fascinantes, torna-se evidente que as mudanças mais profundas da sociedade raramente surgem de forma isolada…
Elas nascem de encontros.
Encontros entre mulheres que compartilham saberes, fortalecem umas às outras e constroem, coletivamente, caminhos para enfrentar desigualdades históricas.
Quando Aimê Araújo afirma que o futuro se constrói entre mulheres que caminham juntas, ela faz muito mais do que uma afirmação simbólica; ela descreve um processo político concreto que conecta ancestralidade, visão, formação e ação coletiva. O mais incrível é que justamente dessa rede de relações surgem novas possibilidades de imaginar e de buscar a construção de um país equitativo, que veja, empodere e inclua mulheres negras.
Hoje, pare para refletir: Qual mulher negra inspira a sua caminhada? O que você pode começar a fazer hoje, a exemplo dela, para transformar a comunidade em que você está inserida?
Continue acompanhando o Instituto GUETTO para ficar por dentro das novidades de uma organização que trabalha através e por mulheres negras!


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