da página: :
top of page

Como a paternidade negra deu origem ao Instituto GUETTO

  • Hannah Dias
  • 10 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 17 de jan.

A construção de um novo olhar a partir dele, para ele e para além dele.


A paternidade negra traz o reforço da nossa identidade. 

Foi isso que Vitor Del Rey, presidente e cofundador do Instituto GUETTO, percebeu quando descobriu a espera de seu filho, Aaron. O que antes era um projeto informal, precisou ser reformulado; o que poderia ser adiado, agora tinha pressa; e o futuro que era o reflexo do presente trouxe a inconformidade.

Em clima de Dia dos Pais, descubra como a paternidade negra vivida por Vitor revolucionou sua vida, assim como a de milhares de pessoas, e foi a base de um legado que faz história no Brasil!

Antes de tudo: o impulso de impactar vidas negras


Em 2015, enquanto cursava sua graduação na Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, Vitor percebeu que o seu privilégio de receber bolsa de estudos na universidade não poderia parar nele. Ao ver diversos colegas tendo oportunidades de empregos e especializações dentro do seleto ambiente acadêmico, ele sabia que poderia fazer o mesmo pelas pessoas negras na sua região — e, quem sabe, ao redor de todo o Brasil.

Assim nasceu a Escola Ponte para Pretxs, com cursos informais e totalmente gratuitos para potencializar a população negra no Brasil. De forma orgânica e despretensiosa, Vitor criou uma comunidade de pessoas negras que eram impactadas diretamente pelo conhecimento que ele tinha acesso na universidade.

O inglês já não era uma barreira para processos seletivos e diversas outras micro-formações faziam total diferença na profissionalização de centenas de pessoas. Vitor e a Ponte mudavam vidas, ainda que não tivessem se formalizado e se estruturado para atuarem de forma profissional.

A gravidez que virou Ponte de transformação

Tudo mudou no dia 24 de abril de 2020, quando Vitor descobriu a notícia que muda para sempre a vida de homens e mulheres em todas as partes do mundo: a gravidez de sua companheira de vida, Aimê Araújo – hoje, diretora executiva do Instituto GUETTO.

“[…] Depois disso foi um carrossel de emoções, primeiramente medo, mas, o verdadeiro amor lança fora todo medo. A chegada do Aaron, agora em outubro de 2020, não foi só a chegada de um filho — foi a chegada de um novo eu ou de um mini-eu como dizem.”

, relatou Vitor.

O nome “Aaron” possui diversos significados: “exaltado”, “forte”, “montanha de força” ou… “mensageiro”. Com ele, veio a urgência, o medo e a inconformidade de um pai. E, como um bom mensageiro, Aaron trouxe a necessidade de Vitor repensar o que tinha como garantia para impulsionar o futuro de seu filho e o de milhares de pessoas.

“Foi quando compreendi, de forma visceral, que a luta contra o racismo precisava ser também uma construção coletiva e de afeto, de cuidado e presença. A paternidade me tirou da ética da sobrevivência e me colocou no campo da colheita: comecei a pensar no mundo que eu queria VIVER e depois deixar para o meu filho — e não só no que eu queria evitar que ele sofresse.”

As experiências, dores e anseios de pais negros são únicas. De acordo com o Estudo do Instituto Promundo (2023):

“O homem preto brasileiro, com todas as precariedades que lhes foram impostas, só teve a possibilidade de começar a exercer a paternidade após a abolição da escravatura, em 1888. Logo, ele está há menos de dois séculos exercendo paternidades nessas terras. Um século e meio, quando se trata de desenvolvimento humano, é quase nada. Toda memória de paternidade do homem preto anterior ao século XIX é memória afetiva da África.”

Essa é a paternidade afetiva e ancestral que transformou uma escola desformalizada em uma instituição de impacto e relevância nacional.


O nascimento do Instituto GUETTO: por Aaron e por todos nós


A paternidade negra traz o reforço da nossa identidade tanto da parte dos pais quanto dos filhos, sendo compreendida de formas distintas, dependendo das famílias. Por outro lado, o consenso inegável é a força ancestral dessa relação.

Vitor relata que Aaron foi o “motivo do nascimento e a profissionalização do Instituto GUETTO”, inspirando-o a ir além de cursos gratuitos para pessoas negras e compor uma instituição identitária e reconhecida, hoje com diversas soluções e projetos para todos os setores da sociedade, como o Quilombo Educacional, Mapa Preto da Educação, Cenários Futuros para a População Negra no Brasil, Escola Ponte para Pretxs, e muito mais.

“Foi por ele (Aaron) que organizei minhas dores, estudei mais profundamente as desigualdades que nos atravessam e decidi que minha vocação estava em construir soluções sistêmicas e estruturantes.”


Hoje, o Instituto GUETTO é apenas alguns anos mais velho que Aaron e, junto deles, por meio de sua parceira, ainda veio a "talentosa e brilhante" Valentina. Ou seja: a paternidade, além de ser recebida, também é conquistada e compartilhada.

A paternidade negra presente traz algumas reflexões: indo além de toda a estruturalidade do racismo, a sua dignidade é refletida através de um momento oportuno, em que pais negros (pretos e pardos) podem exercer uma cultura ancestral de cuidado e afeto, redirecionando o passado com as infinitas possibilidades de novas narrativas.

“Ele (Aaron) não é só uma inspiração; ele é um lembrete vivo de que nosso povo merece viver feliz, próspero e com dignidade, liberdade e amor.”

O Instituto GUETTO é o legado que construímos para todas as pessoas que vieram, vêm e virão. Continuaremos juntos e juntas, avançando e potencializando as novas gerações


Você pode apoiar o nosso trabalho e fazer parte do impulsionamento histórico de novos futuros. É só clicar aqui!

Comentários


bottom of page